The pains of being an historian

É verdade que venho atrasada, o 10 de Junho foi ontem, mas são coisas que acontecem.
Questão: porque é que se celebra o Dia de Portugal no dia de Camões? É uma espécie de dúvida existencial que tenho. 10 de Junho é realmente o dia de Camões (Vamos pôr de parte que seja o dia da morte dele, logo estamos a celebrar a morte do senhor. Nem vale a pena tentar fugir à ironia, está escarrapachada.), mas alguém decidiu que ia ser Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades (era da raça, mas depois do 25 de Abril acharam que isso era degradante, excepto o Presidente da República Cavaco Silva, que parece que não recebeu o memo e há uns tempos se descaiu). Eu até entendo a ligação entre o Camões e as Comunidades. É uma ligação fraquinha, forçada, mas estendo. Agora a ligação entre Portugal e o dia da morte do Camões ultrapassa-me. Antes do Camões morrer não havia Portugal? Portugal só se tornou alguma coisa importante depois do poeta zarolho bater a bota?

E agora a minha visão: não seria muito mais razoável escolher como dia para celebrar o país a data em que ele se tornou oficialmente independente? A data em que um documento atesta que Portugal passou a ser Portugal, reino com rei e população e leis? É que essa data existe, apesar de estar bastante esquecida e praticamente nem ser dada na escola. Foi a assinatura do Tratado de Zamora a (preparem-se, porque esta é mesmo muito muito boa) 5 de Outubro de 1143. Sim, 5 de Outubro. Aquele feriado que retiraram. Porque não interessava. Porque não havia razões práticas para comemorar a Implantação da República. Pois… depois venham dizer que os miúdos não percebem nada da história do país em que vivem. Os adultos, pelos vistos, também não.

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3 Responses to The pains of being an historian

  1. Nikkita says:

    Ahaha! Ai, ri-me tanto com este teu post…! 😀 Adorei a parte “Portugal só se tornou alguma coisa importante depois do poeta zarolho bater a bota?”…! Totalmente de acordo! Eu a pensar que era a única pessoa que pensava nestas coisas com que ninguém parece incomodar-se minimamente. Eu própria já tinha perguntado (em conversa de circunstância) o porquê de terem retirado o 5 de Outubro, que me parecia tão mais importante que o 1º de Janeiro (por exemplo). Chamou-me tonta e perguntou-me se não tinha mais em que pensar. Lá está…ninguém quer saber.

  2. Nikkita says:

    Ahaha! Ai, ri-me tanto com este teu post…! Adorei a parte “Portugal só se tornou alguma coisa importante depois do poeta zarolho bater a bota?”…! Totalmente de acordo! Eu a pensar que era a única pessoa que pensava nestas coisas com que ninguém parece incomodar-se minimamente. Eu própria já tinha perguntado (em conversa de circunstância) o porquê de terem retirado o 5 de Outubro, que me parecia tão mais importante que o 1º de Janeiro (por exemplo). Chamou-me tonta e perguntou-me se não tinha mais em que pensar. Lá está…ninguém quer saber.

    • sofiadantas says:

      Eu tenho tendência para ser picuinhas e complicar muito as coisas. Penso demasiado, uma prática tão errada como pensar pouco.
      O 1º de Janeiro é um feriado religioso, a Solenidade de Nossa Senhora (apesar de a maior parte das pessoas achar que se está a comemorar o início do ano), não podia ser tirado em troca do 5 de Outubro. O 1º de Maio podia, mas como ainda estamos a ressacar do 25 de Abril não se pode tocar nesses assuntos, é sacrilégio. É preciso que morram os políticos que restam dessa altura para depois se considerar retirar um feriado que em termos práticos quase não tem simbolismo em Portugal.

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