Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sempre tive um problema com a interpretação de literatura (e especialmente poesia) nas aulas de português, mas achava que era uma embirrância exclusivamente minha. Aos alunos era pedido que olhassem para uma frase, um verso ou um poema e espremessem dali as ideias que passavam na cabeça do autor quando o escreveu (e pior, fossem avaliados por isso). Ora, eu achava (e acho) isso estapafúrdio. Nunca ninguém poderá saber qual era realmente a ideia do poeta quando escreveu aquele verso, e corremos o risco de estar a fazer assumpções completamente erradas. Se calhar quando ele dizia que as paredes estavam pintadas de azul não estava a tentar insinuar a tristeza profunda que ia na sua alma decorrente da incapacidade de se integrar numa sociedade em permanente transformação. Se calhar as paredes eram mesmo azuis. Lembrei-me disto hoje porque li uma crónica do António Guerreiro no Ípsilon de sexta-feira, em que reflecte sobre a forma como a literatura é avaliada nos exames do Secundário. E depois de a ter lido, não apenas fiquei consciente de que a minha embirrância com a interpretação seria no mínimo bem direccionada, como fiquei ainda mais preocupada com a forma como o ensino está a reduzir a capacidade de pensamento crítico dos alunos.
Diz António Guerreiro «Algum examinado que se desloque ligeiramente em relação ao “cenário de resposta” pode provocar cataclismos em cadeia : em primeiro lugar, afasta-se dos “critérios específicos de classificação” (lavrados em quinze páginas de prescrições e de previsões de desvios), o que significa fugir do horizonte dos “descritores do nível de desempenho no domínio específico da disciplina”».
Resumindo, se o aluno pensa pela sua própria cabeça e propõe uma interpretação sua, e não aquela que lhe foi insistentemente repetida pelos professores ao longo do ano (que por sua vez servem apenas como meios de difusão de um programa feito sabe-se lá por quem, que exclui imensa informação e autores que faria todo o sentido estudar), tem uma avaliação mais baixa, correndo o risco de chumbar. Porque, e esse é o ponto que me atormenta, o modelo escolar português está construído não na base de desenvolver o raciocínio dos alunos, incentivando-os a pensar por si próprios, a ir mais longe e questionar (a dúvida metódica do Descartes, lembram-se? Dá-se no 11º ano, em Filosofia), mas sim para produzir centenas e milhares de jovens que repetem os mesmos versos dos Lusíadas, as mesmas frases do Memorial do Convento, e acham que o facto de o Ricardo Reis estar sentado à beira-rio com a Lídia de flores no regaço comporta uma metafísica gigantesca que combina amor, estoicismo e morte. Talvez o Ricardo Reis estivesse só sentado com a Lídia à beira-rio, porque naquele dia estava bom tempo. E ela tinha apanhado umas flores. Porque gostava de malmequeres. E não vem mal nenhum ao mundo por isso.

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7 Responses to Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

  1. Nikkita says:

    Eu pensava que era a única pessoa a achar que a interpretação de poemas era a coisinha mais estúpida que poderíamos fazer depois de ler um poema, numa aula. lol
    Lembro-me bem de ter ficado “zangada” depois de um professor de português dizer o que quereria dizer um poeta X num dado poema. Fiquei completamente “passada” porque tudo aquilo me parecia tremendamente rebuscado. E depois de eu ter questionado o prof se o poema não quereria dizer outra coisa (que me parecia tão mais simples e racional), ele disse simplesmente um “Não”. E eu só pensava: “É impossível saberem o que o poeta quereria dizer exactamente, a não ser que este tenha deixado um “manual de instruções…” lol”
    É…parece que pensarmos por nós próprios não é bem aceite… Mas não me parece que seja apenas nisto…de um modo geral acho que somos criticados/julgados por dizer aquilo que pensamos…

    • sofiadantas says:

      Eu concordo completamente que esta manipulação é muito mais geral. Só que começa precisamente na escola, com miúdos que até aos 18 anos só aprendem as partes da História de Portugal que interessam para criar um jovem nacionalista (história é a minha área, e é o meu sofrimento maior que seja tal mal ensinada nos programas actuais). Miúdos que são ensinados a pensar o menos possível, a seguir a massa de povo indiferente, que acaba a ler os romances light da Margarida Rebelo Pinto e a preferir ir à praia em dia de eleições. E que põe no poder os políticos que têm lá estado nas últimas décadas, e que fizeram deste país o lodaçal que é hoje. E isso é muito, muito triste.

      • Nikkita says:

        Claro, e tens toda a razão, porque é verdade! Somos mesmo ensinados a pensar o mínimo possível, o que é completamente idiota, porque cria exactamente isso – idiotas.
        Ahah, pois eu li uns livros dessa senhora, quando tinha uns 14 anos e ainda não sabia o que era um livro “a sério”. Mas depois aconteceu o inesperado!: Comecei a pensar (por mim, claro está). 😀
        Claro que tudo é triste e ainda pior, é que vai continuar.

      • sofiadantas says:

        Eu li um dela, para adolescentes. É daquelas coisas que se lê e se esquece, não me lembro do enredo. E não estou a dizer que ler umas porcarias ou vegetar um bocado à frente da televisão seja algum crime. O problema é que muita gente só faz isso. Mas ainda bem que algumas pessoas mudam as coisas e começam a pensar 😛

  2. Filipa says:

    concordo tanto com o que escreveste. Se havia coisa que não gostava nada de fazer na escola era interpretação de poemas ou textos, tinha sempre de ver o que os outros queriam que visse, mesmo que não estivesse de acordo.
    Depois na faculdade (também sou da área de história- história da arte) também ficava um bocado irritada quando era obrigada a aceitar certas teorias (que não eram baseadas em factos ou documentação) só porque o professor doutor achava que sim.
    Ah, quanto ao ensino de história em Portugal tenho de concordar contigo. O programa não está bem pensado, há coisas que escapam e eram importantes e há coisas que se dão só porque sim, porque o “que é nacional é bom! “

    • sofiadantas says:

      Eu tenho a presunção de escrever poesia, e incomoda-me estar a interpretar os textos dos outros porque sei, por experiência própria, que aquilo que aparece num poema raramente é óbvio e facilmente relacionável com pessoas ou acontecimentos. E menos ainda concordo em ser avaliada por uma interpretação pessoal, quando o professor e o avaliador do exame têm outra interpretação deles.
      Quanto à história, quando entrei para a licenciatura uma das primeiras coisas que nos disseram foi que esquecemos tudo o que tínhamos aprendido em história, porque estava errado. E claro, à primeira vista pensámos que era uma forma de arrogância dos professores. Mas depois começámos a ver a documentação e realmente muitas das coisas estavam erradas, ou tinham sido dados de forma a salientar apenas o que parecia mais meritório para o país. Por exemplo, estuda-se os Descobrimentos, o Marquês de Pombal, depois há um salto enorme e estamos na Primeira Guerra Mundial e nos coitadinhos dos soldados do Corpo Expedicionário Português. O século XIX praticamente não é estudado, o que é um resquício da forma de manipulação nacionalista utilizada durante o Estado Novo. Que seria de esperar tivesse sido ultrapassada no Portugal “Democrático”, mas não foi, de todo. Foi apenas transformada, por exemplo, o Estado Novo passou a ser diabolizado (não estou a dizer que não tenha sido uma ditadura fascista, que causou mortes e sofrimento a milhares de pessoas), fazendo por não mostrar certos acontecimentos vantajosos para o país, nem que fosse apenas na parte económica.

  3. Avidni says:

    Completamente de acordo. E também tive e tenho o mesmo problema com as interpretações.

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