Let’s all be really stupid II

Isto era para ser um comentário ao post anterior, em jeito de resposta/concordância com os comentários da Filipa e da Nikkita, mas começou a tornar-se demasiado longo e decidi fazer dele um post.

Como nos últimos tempos o tema tinha caído um bocadinho no esquecimento, a ignorância das pessoas também tinha deixado de ser tão visível, e eu achei que se calhar Portugal estava a evoluir. É daquelas patetices que às vezes pensamos, do género “se calhar um dia ganho o euromilhões”. Passaram 3 anos desde a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e eu achei que talvez a sociedade estivesse preparada para a adopção, ou pelo menos para a co-adopção, se não fosse pedir muito.
Mas depois surgem figuras como este senhor, Bastonário da Ordem dos Advogados, armado em comentador social em programas para aturdir as velhas e os desempregados, com um cargo de importância, com influência nas mentes da massa burra de portugueses que passa o dia com a televisão ligada no Big Brother e acha que votar é uma chatice que lhe estraga um dia de praia. E essas figuras, como este senhor, que podiam fazer um bocadinho mais de diferença do que eu, porque têm capital social e político para isso, preferem alimentar a ignorância do povo, tornando pública a sua própria ignorância. Preferem disfarçar de tolerância (e não, a tolerância não é boa, e dizer que se é tolerante e que “até se tem muitos amigos gays” não é mostrar sensatez ou inteligência) o seu preconceito e manter burro o zé povinho apático que ainda não percebeu que a crise económica é uma coisa eterna e que ser gay não é uma doença infecto-contagiosa.
E isso custa-me. Custa-me mesmo fisicamente. Porque eu cresci no Portugal do final do século XX/ início do século XXI, um país em que todos os alunos do básico tinham um computador, um país em rede, moderno, tecnológico, com potencial. E nesse Portugal do novo milénio, da nova Europa, de Schegen e do euro, eu fui vítima de bullying por ser gay. Eu e mais uns bons milhares de miúdos. Eu senti-me insultada por ser quem sou. Eu cresci dentro de um insulto, e isso impede-me de hoje, adulta, ser completamente feliz comigo mesma. Eu tenho vergonha de ser quem sou porque assimilei da pior forma esse insulto que tão regularmente os cidadãos comuns usam para descrever tudo e mais alguma coisa: “que roupa tão gay”, “que carro tão gay”.
E senhores como este, que eu nem sei que autoridade têm para fazer pareceres sobre a adopção, vêm esgravatar mais um bocadinho na ferida que 99% dos homossexuais, bissexuais e transgéneros têm cá dentro: somos diferentes, somos a minoria. E estas pessoas nunca nos deixam esquecer isso.

P.S.: Isto levanta também outras questões: este senhor representa uma instituição onde eu não tenho a menor dúvida que existam homossexuais. Se calhar muitos deles casados. Se calhar muitos que queriam ter filhos. E este senhor, a representá-los, ofende-os. Porque é isso que estas pessoas fazem ao falar, esquecem-se que o seu cargo implica representar as pessoas contra as quais se dirigem. Tal como o líder do partido, tal como o padre, eles representam pessoas que vivem no dilema de defender uma ideologia ou uma fé que os insulta. E eu nem quero imaginar o que seja viver nesse limbo existencial.

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4 Responses to Let’s all be really stupid II

  1. Filipa says:

    Pronto, volto aplaudir de pé!

  2. Nikkita says:

    Sofia,
    Acabaste de caracterizar a mentalidade da maioria dos portugueses (homofóbicos, infelizmente) de uma maneira assustadoramente real. Sim, porque é assim que eu (também) os vejo: Uns comodistas que se só preocupam com o seu rico umbigo e que não gostam de coisas que os façam pensar.. “ai deus nos livre de pensar que o casamento entre iguais é um acto de amor tal e qual os de sexo diferente e que a adopção é um direito que deveria assistir a todos os seres humanos…Isso é um ultraje!”- Pensar que este país já andou um “baby step” para a frente é uma ilusão, pois com reações como a desse senhor faz crer que o que precisamos é mesmo de pessoas que gostem de pensar, que não se importem de dar uns largos passos à frente em mentalidades. Sim, porque proibir pessoas de se casarem ou adoptar é voltar atrás no tempo, quando havia um regime opressor e tudo era feito pela calada.
    Não é de todo um país onde se queira viver…

    P.S.: Em relação ao que escreveste,estou ali com a Filipa…standing ovation! 🙂

  3. sofiadantas says:

    Filipa e Nikkita, obrigado 🙂

  4. Ainda no outro dia, li um comentário de um rapaz que dizia que concordava com o casamento, mas que tinha as suas dúvidas em relação à adoção depois de lido uma notícia que o deixou, a partir daí, de pé atrás. Leu ele, no Christian Post, um artigo com o belíssimo e imparcial título “Lesbian Parents Put 8-Year-Old Boy Through a Sex Change”. Tanta ignorância e preconceito junto… Apesar de tudo, acho que já há muita coisa a mudar. O Bastonário pode chegar a algumas pessoas, mas olha que o Beauté e o Borges, que adotaram um menino com Trissomia 21, e com o apoio do tribunal, chegam se calhar a muito mais gente pelas revistas cor-de-rosinha. E o Goucha que consegue pôr a Isilda a ridicularizar-se quase sozinha. E as pessoas com quem nos vamos cruzando e que nos surpreendem. Apesar da ignorância de uns, há que confiar na evolução de outros.

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