May your journey be long and full of adventures

Aviso às 3 pessoas (nas quais provavelmente se inclui a minha mãe) que lêem isto: o texto que se segue é longo, confuso e não especialmente interessante. Tem andado para trás e para a frente na minha cabeça, e o resultado não me satisfez completamente. Como este blog é essencialmente um sítio para onde deito as coisas que me passam pela cabeça, este texto tem uma função de compreensão e em parte de terapia. Se mesmo assim decidirem lê-lo, obrigado.

I. Há uns anos atrás, no onda que se seguiu à publicação do Código Da Vinci, li um livro vagamente parecido chamado O Anel – A herança do último templário. O título diz tudo, basicamente. Não me recordo especialmente do enredo, que tenho ideia que não fora lá muito bem conseguido. Metia sociedades secretas e a história dos templários puxada para a actualidade, algo desse género. O que teve um grande impacto em mim naquela altura (teria uns 14 ou 15 anos, talvez) foi a mensagem subliminar: a vida é uma viagem. Lembro-me que na epígrafe do livro, ou algures no enredo, era referido o poema Ithaca de Konstantinos Kavafis (que transcrevo abaixo porque é realmente muito bonito), e que essa ideia da vida ser um percurso, uma estrada que liga dois pontos (nascimento e morte), me deixou surpreendida, como todas aquelas coisas evidentes e banais que nos passam ao lado no quotidiano, e que nos deixam de boca aberta quando finalmente “cai a ficha” cá dentro. O que importava era aproveitar a viagem, viver, experimentar, sentir. A chegada devia ser adiada ao máximo.

II. Nos últimos tempos tenho pensado mais nessa ideia da vida como viagem, e mais ainda na ideia da vida como um conjunto de etapas. Porque eu terminei uma etapa, cheguei à meta, cortei a fita, e do outro lado não havia nada. Até ao final do ano passado a minha vida tinha sido uma sucessão de eventos que decorriam em consequência dos anteriores, e que tinham sido estipulados há muito tempo. Depois de um passo eu sabia que tinha de dar outro, depois do secundário ia para a faculdade, depois da licenciatura ia para o mestrado. E de repente eu, control freak, que faz listas de tarefas semanalmente, não tinha um plano. E foi o pânico.

III. Seguindo esse raciocínio, uma etapa da minha vida terminou, e outra está a começar. Gosto de pensar que está. Mas também sinto que a etapa anterior não tinha sido um período de viagem nesse caminho que nos leva do berço ao túmulo. Tinha sido um período de estagnação. Tinha descoberto um porto seguro no caminho, e não tive coragem de sair dele, era mais simples ficar ali onde tudo estava definido e era previsível, nada podia correr mal (um dia vou falo-vos do meu trauma do falhanço).

IV. Mas este arrazoado todo serve para chegar ao presente. A este momento do percurso em que me encontro agora, e em que acredito que finalmente me estou a tornar na pessoa que quero ser. E este é o ponto fulcral. Será que nos podemos realmente tornar nas pessoas que queremos ser? Será que isso é uma possibilidade? Ou não passa de um sonho? O ser humano é naturalmente insatisfeito, e ainda bem que assim é. Por isso, será que algum dia estará satisfeito com a pessoa que é? Será que a natureza humana apenas nos permite ver os momentos em que fomos aquilo em que menos nos queríamos tornar, ou podemos algum dia olhar para nós próprios e sentir-nos felizes com quem somos? Porque se não existe essa possibilidade, o fim da nossa existência, que eu acredito que seja a felicidade, fica um bocado toldado. De que valerá vivermos e existirmos se nunca formos a pessoa que escolhemos ser?

V. Basicamente é nisto que tenho andado a pensar, e não cheguei ainda a conclusões. Mas pensar é sempre bom, mesmo que não se chegue a lado nenhum. Deixo-vos o Kavafis (e recomendo que pesquisem um bocadinho sobre ele, porque teve uma vida interessante – e gay XD) e desejo-vos uma boa viagem.

ÍTACA
Konstantinos Kavafis

Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
O irascível Poseidon, não os encontrarás,
Se não os levas em tua alma,
Se tua alma não os ergue diante de ti.

Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.

Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias no caminho.
Nada mais tem a dar-te.

Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim te tornaste, com tanta experiência,
já deves ter compreendido o que significam as Ítacas.

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1 Response to May your journey be long and full of adventures

  1. Nikkita says:

    Gostei bastante ler o que escreveste. Um texto muito introspectivo e acerca de um tema que a dada altura a todos nos passa pela cabeça (ou pelo espírito?). A vida é mesmo uma viagem e esperamos sempre que corra como imaginámos, ou pelo menos que nos proporcione “material” para mais tarde recordar e fazer-nos esboçar um sorriso ou verter uma lágrima… 😀 Mas é bom que penses nisso, mostra que não és mais um “zombie” criado pela sociedade que vive porque é suposto viver, escolhe porque tem de escolher, e pensa porque tem de pensar… ( já estou a divagar, sorry! )
    Ah, e gostei do poema! Obrigada pela partilha. 🙂

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