Temos o país que merecemos

Há uns dias o senhor Camilo Lourenço, que é um misto de jornalista, economista e sabe-tudo, fez uma afirmação muito pouco inteligente numa entrevista na RTP1. Segundo ele (e muitos que pensam como ele, onde aparentemente se conta o actual governo), alguns desempregados têm na verdade culpa da sua situação de desemprego, por terem escolhido áreas de formação com menores garantias, ou que é mais difícil encaixar no mercado de trabalho (como se houvesse algum curso neste momento que tenha emprego garantido…). E decidiu eleger como exemplo o caso da História. Afirmou o senhor Lourenço que os licenciados em História “não servem para nada”.
Ora, esta afirmação incomodou-me, a mim e a muitos outros. Sou formada em História, licenciatura e mestrado. E tenho como projecto de futuro tirar um doutoramento na mesma área. Se vou ter emprego garantido? Possivelmente não. Mas eu não tirei um curso para ter emprego. Pelo contrário, passei grande parte dos meus anos de faculdade a dizer que estava a estudar para o desemprego. E não compreendo totalmente essa ideia de que se estuda para ter um emprego. Eu formei-me na área que me apaixona,  que me move. Se queria ter emprego garantido poupava tempo e dinheiro e tinha ido para uma agência funerária. O objectivo de estudar é crescermos, aperfeiçoarmo-nos, cultivarmo-nos, não é ter um salário garantido à porta da faculdade. E se nunca arranjar trabalho em História, então pelo menos tive a oportunidade de fazer algo de que realmente gostava enquanto estive a estudar. Deve haver quem ache tópico pensar assim. Pois que seja. Mas eu acredito que, uma vez que tudo leva a crer que esta é a única vida que vamos ter, não deveríamos desperdiçá-la a tirar um curso numa área que abominamos, só porque assim temos logo um postozinho de trabalho entediante à nossa espera, e passarmos o resto dos nossos dias a lamentarmo-nos sempre que vamos a caminho do emprego. Chamem-me sonhadora, mas estou farta até à ponta dos cabelos de pessoas que não gostam daquilo que fazem. Acho impressionante que se desperdicem anos de vida a fazer algo que se odeia, e acho ainda mais impressionante que o Estado e a sociedade incentivem esse tipo de comportamento.

Ouvi e li comentários a essa saída triste do senhor Lourenço em que algumas pessoas achavam estranho o número de alunos que entravam para os cursos de História há uns anos atrás, afirmando que era um exagero a quantidade de pessoas que tinham como únicas saídas profissionais o ensino ou a investigação em institutos públicos. Acho que é aí que Portugal falha. Existe uma dificuldade muito grande da parte da sociedade, do Estado e das empresas, em perceber que pessoas formadas em História, Filosofia, Estudos Clássicos ou quaisquer disciplinas das Humanidades têm uma capacidade aumentada de lidar com e resolver problemas de longo prazo, ao contrário dos economistas, gestores e quejandos, que são formados para resolver problemas de curto prazo e rezar para que as coisas não se repitam. Mas elas repetem-se, sempre. É uma coisa que se aprende em História. Tudo se repete, mas tudo é único, e o ser humano tem de estar capacitado para entender cada acontecimento único e resolvê-lo de forma única (parece contraditório, mas não é). Por outro lado, os economistas e afins aplicam o mesmo modelo matemático a todas as crises económicas, chegando depois à conclusão que não funciona. “Vamos usar na crise de 2011 o mesmo modelo da crise de 1983, porque assim é mais fácil.” Viu-se a merda que deu.

Eu não tenho nada contra o estudo da economia, ou das finanças. Há bons e maus economistas, como há bons e maus historiadores, e como há bons e maus pedreiros. É uma inevitabilidade do ser humano. O que não aceito é que uma classe profissional inteira seja utilizada como exemplo para justificar um problema social e económico, o desemprego, causado pela falta de competência e de inteligência dos economistas, gestores, políticos e técnicos de folhas de Excel, nos últimos 30 anos.

Para um texto inteligente sobre o tema, veja-se http://abrupto.blogspot.pt/2012/02/nova-luta-de-classes-ha-dias-no.html.

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