Houston, we have a problem

Estreou um filme baseado nos acontecimentos do tsunami que afectou os países em redor do Oceano Índico em 2004. Pessoalmente não aprecio filmes baseados em histórias verídicas próximas à actualidade, por defeito de formação. Mas neste caso em particular, tenho uma certa dificuldade em compreender as razões do exercício. A recriação dos eventos parece-me uma exploração do sofrimento alheio, sofrimento esse que ainda está muito presente. Olhando para este caso, alguém está a ter um lucro de milhares ou milhões de dólares com base nas mortes de centenas de milhar de pessoas, recriando-as, publicitando-as.E quais são os efeitos benéficos deste lucro para as vítimas reais? Nenhuns. Em Portugal uma parte das receitas reverte para a Cruz Vermelha, mas em que é que esse dinheiro irá ajudar os milhões de pessoas que tiveram as suas vidas destruídas (literalmente, porque as vilas e cidades em que viviam desapareceram do mapa) na Indonésia, ou na costa africana, ou em outros locais? Será que alguma vez chegou apoio ao cidadão anónimo que vivia na aldeia no meio da floresta, e que ficou sem casa, sem família, sem trabalho, sem nada?

O que é que leva um guionista ou um realizador a apostar neste tema? Quais são os seus objectivos (pondo de parte o óbvio interesse financeiro)?

Celebrar a capacidade de resiliência e de sobrevivência do ser humano? Mas isso poderia ser feito através de um olhar para qualquer exemplo da nossa sociedade, o senhor José que ficou sem emprego aos 50 anos e deu a volta por cima, a senhora Maria a quem foi diagnosticado uma doença grave e lutou para se curar. E se o objectivo era este, porquê pegar numa “história verídica de uma família espanhola”, e tirar-lhe o realismo com dois actores britânicos?

Alertar para o perigo eminente de sermos vítimas de uma catástrofe natural? Pondo de parte o efeito reduzido ou nulo que qualquer forma de alerta tem na espécie humana, um filme de ficção (por muito que tenha como base eventos verídicos) será o meio mais eficaz de o conseguir? Vejamos o caso português, em que nem a recordação do terramoto de 1755 (e consequente tsunami) é suficiente para motivar as autoridades e entidades competentes a fazer construções preparadas para o impacto de um sismo.

A utilização do conceito de verídico em filmes (e livros) parece ter-se tornado nos últimos anos apenas numa estratégia de marketing que garante lucros com base na necessidade mórbida que o ser humano tem de ver o sofrimento alheio e com isso se sentir menos frustrado. E não digo com isto que não haja bons filmes e livros sobre histórias verídicas. Mas parece-me existir um carácter demasiado doentio neste tipo de olhar sobre o presente, que pouco ou nada contribui para um melhor conhecimento das pessoas e das sociedades.

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2 Responses to Houston, we have a problem

  1. Lilás says:

    Falando da minha experiência, penso que os filmes baseados em factos reais, penso que estará na base da homenagem e na visibilidade de um acontecimento/pessoa que de alguma forma foi notável ou se destacou de forma positiva. E falando especificamente do filme “The Impossible”, trata-se de uma situação terrível que vitima milhares de pessoas, mas que o filme referencia uma pessoa em particular, que vivenciou dramaticamente tudo aquilo e que lutou e sobreviveu. Se é a única a merecer homenagem, provavelmente não. Provavelmente existiram pessoas muito melhores, que fizeram muito mais, naquela ou noutra situação. Mas a vida é mesmo assim. O filme fica como homenagem aquela família e outras situações farão homenagem a outras pessoas. Temos que acreditar nisso. 🙂

    • sofiadantas says:

      A minha área de formação trabalha com o passado, e exige um distanciamento temporal para poder lidar da forma mais imparcial possível com a informação. Possivelmente é por isso que me custa a entender estes filmes, e não tenho uma apetência pessoal para gostar deles. Não pretendo criticar o filme em si, porque não o vi. Tal como não vi filmes sobre o 11 de Setembro, ou guerras recentes.
      Claro que temos de acreditar que de alguma forma todos os heróis do dia a dia acabam por receber a homenagem merecida. Seria horrível olhar para o mundo de outra forma. Mas também me incomoda bastante toda a questão financeira em redor de um tema tão delicado como recordar um evento trágico. Mas isso são ideias para outro texto 🙂
      Obrigado pelo comentário 🙂

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